Mata Atlântica

Imaginemos que, há muito tempo, existia um lindo ser que vivia tranquila em sua terra, perfeitamente adaptada, até que o Mundo que ela conhecia começou a se separar. Esse mundo foi se afastando cada vez mais, em um cenário de terremotos, deslizamentos e erupções vulcânicas próprias de um filme hollywoodiano. Porém, apesar de todo o caos e da distância cada vez maior de seu mundo original, ela transformou essa situação catastrófica em um renascimento. Como é de se imaginar, no começo não foi fácil, e as mudanças em sua vida não lhe davam a certeza de que as coisas seriam melhores ou de que seriam apenas mais um passo em direção ao caos.

Muitos tempo se passou e, na beira do mar de praias de areia branca, em um clima tropical, ela encontrou um frágil equilíbrio que lhe dava condições de seguir sua vida. Essa estabilidade propiciou a vida de diversos animais, desde as maiores bestas até os menores roedores e pássaros, sem falar das inúmeras formas de plantas e de árvores, dos gigantescos jequitibás e jueranas, e das delicadas orquídeas e bromélias. Várias pessoas chegaram, atraídas por esse paraíso que ela conseguiu formar. Esses povos tornaram-se dependentes do clima, da água, dos animais e das plantas, gentilmente cedidos por ela, sem pedir nada em troca.

Vivia-se plenamente, até que esse meio de vida abundante em recursos passou a ser cobiçado por pessoas de outros lugares, que, logo que souberam da novidade, não se furtaram em correr para lá e se aproveitar de tudo. Não só os recursos foram explorados, mas também os homens e as mulheres que estavam ali, em harmonia com o ambiente. A luta e a defesa foram em vão, devido à superioridade da força e da tecnologia dos colonizadores.

Cegos de ganância e impressionados pela beleza e pela riqueza do lugar, os colonizadores não mediram esforços em conquistar e, em seguida, mais e mais deles chegaram nesse recanto encantado.

Após os tesouros serem retirados à exaustão, tudo colapsou! Dos mais de 1,3 milhões de quilômetros quadrados que havia conseguido cultivar, apenas 9% se mantém vivo, sob a ameaça daqueles que ainda não possuem uma parte e daqueles que já possuem mais do que precisam e que, mesmo assim, querem sempre mais.

Hoje, metade da população de uma nação chamada Brasil vive na área que ela criou. Apesar de todo o mal que lhe fizemos, é nela que residem cerca de 900 espécies de aves, 370 de anfíbios, 200 de répteis, 270 de mamíferos, 350 de peixes e 20.000 de plantas e de árvores. Ainda é considerada uma das 5 áreas mais ricas em espécies de todo o planeta, sem contar aquelas que quase diariamente são descobertas pela ciência. Atualmente, os poucos espaços testemunhas daquele paraíso estão guardados dentro de unidades de conservações criadas e em propriedades de gente corajosa que não quer ver desaparecer essa preciosidade.

Essa foi uma breve história da nossa Mata Atlântica, que há 80 milhões de anos surgiu a partir da separação do continente americano do africano e que passou por diversos períodos de glaciação. A Mata Atlântica já abrigou dinossauros, índios, colonizadores, africanos, brasileiros e gente do mundo inteiro. Tão judiada por nós, ela resiste bravamente e com incomparável gentileza ainda nos abriga, alimenta e entretém. Somos responsáveis por toda essa catástrofe e, mais importante que isso, temos que ser também responsáveis pela sua proteção e pela sua recuperação. Ainda há tempo!

Cleiuodson Lage